Quando o amor virtual custa caro: histórias de idosas e golpistas online
Por Marcella de A. Barbosa
CONTEXTO GLOBAL/BRASIL
Em 2000, por volta de 413 milhões de pessoas eram usuárias da internet. Pouco mais de 20 anos depois, o número de usuários atingiu 4,7 bilhões de pessoas (60% da população ativa do mundo) (Hawdon, J.). Para as pessoas acima da faixa dos 40 anos em 2000, o mundo passou a adquirir uma velocidade adaptativa impressionante e, conforme a experiência de um aumento da solidão passa a ocorrer por diversas razões (envelhecimento, concentração urbana, diminuição dos convívios sociais etc.), um novo mundo se abre, sem fronteiras, para a experiência de interação social: o surgimento das mídias sociais e a construção de uma identidade virtual.
Segundo cientistas, foi a partir da pandemia da COVID-19 que se observou um aumento das interações e movimentações financeiras dessa população de forma mais significativa. Consequentemente, em muitos países, houve notificações de aumento nos golpes online (Hawdon, J.).
(Gráfico, FBI – acesso online)
OS ROMANCE SCAMS: UMA PEQUENA VISÃO INTERNACIONAL (FBI)
O FBI possui uma área específica para o monitoramento de fraudes românticas há alguns anos. Apenas nos EUA, em 2024, foram notificados 24.299 casos, com perdas declaradas que somam 956 milhões de dólares.
O passo a passo desses golpistas, conhecidos como Yahoo Boys, segue um método já conhecido há décadas e que as instituições públicas procuram divulgar sempre:
1. Uma identidade forjada é criada em um site de relacionamento ou chat. Em geral, a pessoa se apresenta como viúvo(a), separado(a), atuando em alguma missão (como militar) ou trabalho voluntário.
2. Ganha-se rapidamente a afeição e a confiança da vítima. Em pouco tempo, já surgem declarações de amor, apelidos carinhosos e a intenção clara de criar o que se chama de “intimidade hiper pessoal”. A experiência provocada é de uma suspensão erótica e íntima, que desloca o apaixonado do mundo real. A partir dessa realidade alimentada constantemente, o vínculo passa a ter cumplicidades próprias que distanciam a vítima de outras referências e experiências (“piadas que só ele e eu entendemos” – fala da P2).
3. Como especialistas, dominam mecanismos de manipulação e estratégias para extorquir dinheiro das vítimas.
Exemplos de manipulação: demonstrar grande interesse pela história da vítima; ao receber uma negativa de ajuda financeira, demonstrar compreensão e reforçar o amor – “Eu só quero o seu amor ou atenção” (fala dita à P1 e P2). A identidade forjada normalmente impossibilita qualquer aproximação real, apesar do imenso amor cortês alimentado. Situações como acidentes, guerras, netos, filhos, questões governamentais são justificativas para solicitar dinheiro, sempre intercaladas com promessas de casamento ou planos para o futuro (IC3, FBI).
Na revista Piauí, edição de maio de 2025, foi publicada uma reportagem de Carlos Barragán apresentando uma prévia de seu livro Yahoo Boys, a ser lançado em 2026. Nele, o autor relata sua experiência na Nigéria, mergulhando na realidade social, cultural e psicológica dos Yahoo Boys, inclusive do golpista com quem sua mãe havia se envolvido. A leitura amplia a compreensão das dinâmicas entre manipuladores e vítimas, e das dimensões sociais e culturais que mantêm essas práticas dentro de um contexto global e virtual.
PERFIL PSICOLÓGICO DAS VÍTIMAS
O lugar da experiência amorosa na última etapa da vida se apresentou como uma das minhas principais questões clínicas com essas pacientes, antes de terem sido fisgadas por essa experiência.
Uma das nossas necessidades básicas, que inclusive nos define como seres humanos, é a de nos sentirmos amados e experimentarmos conexão afetiva com outros. A esse instinto inato dá-se o nome de apego. Precisamos de amor para viver, trabalhar, criar, sentir-nos afirmados e reconhecidos, pois nos formamos continuamente em relação ao outro. Estudos de Bowlby (1990) apontaram para o caráter adaptativo do vínculo na espécie humana, caracterizando-o como uma necessidade primária, tal qual a fome (Carvalho, Politano & Franco, 2008).
Em minha prática clínica com essas pacientes, a experiência do amor conquistado era inebriante, mágica — mesmo quando, em um dos casos, migrou para um longo período de ameaças, cobranças e intimidações. Eram as frestas mágicas que eram buscadas. Apesar de tudo. E muitas vezes, apesar da realidade. A experiência de ser escolhida por alguém, de viver um amor exclusivo, justificava a permanência na relação.
E então, a mesma pergunta retornava: “Apesar de você ter esse ou aquele fato que provoca incerteza ou desconfiança, o que a faz seguir nessa relação?”
Essas relações virtuais neutralizavam ameaças significativas à experiência de Self dessas mulheres:
–> A rejeição, como já vivida e não transformada;
–> A sensação de desinteresse que inibe a capacidade de manter uma relação;
–> E o desejo de dedicação mútua.
O encontro virtual, ao promover uma intimidade hiper pessoal, reacende a sensação de uma dedicação fusionada, gerando uma experiência de completude e propósito restaurado.
O cerne é a vivência de um amor cortês, exaltado “sem fronteiras” e sem necessidade de racionalização. A idealização desse amor aguça a imaginação, e os atos amorosos passam a compor uma trama que rompe com as limitações da realidade. De alguma forma, a mulher que “tira sua roupa e dá o que for preciso” (fala da paciente J.) se vê em uma relação indiferenciada de Self, mas aparentemente segura, ao ocupar o lugar de objeto de prazer e satisfação do outro.
IMPACTOS PSICOLÓGICOS JÁ DISCUTIDOS
Na literatura científica, o aspecto mais debatido não diz respeito à experiência durante o golpe (sobre isso, apenas Whitty, 2016, e o FBI), mas sim aos efeitos posteriores:
“Vítimas demonstram uma variedade de consequências mentais após essa experiência, incluindo vergonha, tristeza e constrangimento. Em alguns casos, pode ser necessária a intervenção de profissionais.” (Whitty, 2016)
Transtornos de estresse pós-traumático já foram relatados, assim como avolição, insônia, alterações alimentares e autoimagem negativa (Cole, 2024).
Mas por que tantas pessoas caem nesses golpes? Quais vulnerabilidades psicológicas estão envolvidas?
Na revisão de 12 estudos feita por Coluccia (2020), 63% dos usuários das redes relataram ter sofrido algum tipo de vitimização. Os principais fatores associados são: serem mulheres, de meia-idade ou mais, alto nível de neuroticismo, tendência à idealização romântica, busca por sensações intensas, impulsividade e suscetibilidade a vícios.
Inocência: Observei capacidades reflexivas reduzidas frente à “invasão de um ideal de Amor”. Essas pacientes traziam dinâmicas ansioso-ambivalentes anteriores ao golpe e uma angústia pela chegada do “meu Um”. Quando a paixão surge, a capacidade reflexiva é temporariamente suspensa.
Walsh (2002) sugeriu que as pessoas precisam de três casamentos ao longo da vida: um romântico, um baseado em responsabilidades compartilhadas e um afetivo e atencioso na maturidade. Para isso, mais do que novos parceiros, é preciso transformar os contratos relacionais.
A recomendação comum das instituições que monitoram golpes online é: desconfie. Não de forma paranoica, mas com capacidade de discriminação e proteção.
CARÊNCIA
As principais portas de entrada são aplicativos e redes sociais (como Instagram), principalmente para mulheres idosas que os utilizam de forma ilimitada e não supervisionada. Há uma convergência entre a solidão e a exposição a um ambiente potencialmente perigoso. O meio virtual pode ser mais perigoso que as ruas, pois exige novas formas de leitura, escolha e comunicação.
GÊNERO
Por que mais mulheres? (Freitas & Costa, 2024)
A violência cibernética ainda representa apenas 1% dos crimes contra a mulher, o que dificulta sua visibilidade (Coding Rights; InternetLab, 2017, p.12 – Freitas & Costa, 2024). As violências de gênero na internet não estão descoladas do “mundo real” e operam nas mesmas dinâmicas de vulnerabilidade enfrentadas nas relações de gênero.
FINITUDE E SISTEMA ANSIOSO-AMBIVALENTE
A meu ver, quando o amor ao amor é acionado e a finitude (ou crise de meia-idade) gera angústia quanto ao fracasso afetivo, a mulher pode tornar-se mais suscetível. O ambiente virtual acentua a vulnerabilidade ansioso-ambivalente, pois o outro pode desaparecer a qualquer momento. A relação depende de seduções e reafirmações constantes.
“Salientam-se aspectos referentes à noção de tempo apresentada pelos idosos. A ideia de ‘finitude’ é lembrada sempre que um amigo falece ou ao perceberem que não podem mais fazer o que faziam antes.” (Eizirik e Kapczinski, 1993, apud Couto, 2008)
O ENVOLVIMENTO DAS FAMÍLIAS
Sorell (2019), ao refletir sobre os parâmetros éticos da responsabilização das vítimas, destaca aspectos psicológicos, sociológicos e éticos. Refletir sobre o grau de negação da realidade é essencial na clínica. Porém, quando o risco à autoproteção se agrava, outras estratégias são necessárias: articulação com filhos, irmãos, rede de apoio. A aproximação familiar torna-se um pano de fundo importante para integrar recursos internos e externos.
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